LEITES INFANTIS EM PORTUGAL: COMO EVITAR TRANSGÉNICOS MESMO SEM HAVER RÓTULO

A maior parte dos leites infantis à venda em Portugal é proveniente de uma cadeia de produção que envolve animais alimentados com rações transgénicas. Quais são essas marcas, e quais as alternativas, não era conhecido até hoje visto que o regulamento europeu de rotulagem só prevê informação ao consumidor quando os ingredientes transgénicos estão diretamente presentes no produto final (o que não é o caso das rações animais). A Plataforma Transgénicos Fora (PTF) contactou as principais marcas multicanal de leites infantis e traçou pela primeira vez o quadro das opções a nível nacional.

No que toca aos leites infantis 100% vegetais – como na marca Alpro Soya – a questão das rações não se coloca, existindo apenas a possibilidade de utilização de soja transgénica na formulação. No entanto esse uso direto já está sujeito a rotulagem e, no caso da Alpro em Portugal, a ausência de indicações na embalagem indicará, em princípio, a não utilização de transgénicos pela empresa.

Os leites infantis de agricultura biológica – como as marcas Holle (suíça) e Babybio (francesa) – garantem por definição a não utilização de rações transgénicas na alimentação animal, entre outros critérios, pelo que não suscitam preocupações do ponto de vista da cadeia de produção. Mas tanto os leites vegetais como os biológicos representam apenas uma pequenina fração do mercado português.

No que toca aos leites de produção convencional baseados em leite de vaca, nenhuma das marcas mais conhecidas está em condições de garantir que os animais são alimentados sem recurso a rações transgénicas, incluindo a Nutribén, Milkid, Nutrilon, Aptamil, Milupa, Blédina, Novalac, Enfalac, Nan, Nidina, Nestlé Júnior e Mimosa Bem Essencial, entre outras.

Tanto quanto foi possível detetar, e sempre de acordo com as informações fornecidas pelas próprias empresas, apenas a marca Miltina (da empresa alemã Humana) pode garantir que os animais são alimentados exclusivamente a pasto e rações livres de transgénicos. Esta será portanto a única alternativa neste momento para os consumidores que não pretendam a opção vegetariana ou de agricultura biológica e queiram garantir que os seus filhos estão protegidos de uma cadeia alimentar assente em transgénicos.

Qual é o risco? A perspetiva científica

Não existem neste momento provas científicas definitivas de que o leite proveniente de animais alimentados com rações transgénicas seja significativamente diferente do restante leite. No entanto a investigação tem sido limitada e a comunidade científica está longe de ter chegado a uma conclusão consensual. Dados preliminares apontam desde já para dois aspetos importantes, ambos a contracorrente do que tem sido defendido pela indústria ao longo dos anos .*1*

O primeiro é que o DNA transgénico da soja/milho já foi nalguns casos detetado no leite dos animais produtores, não sendo destruído pelo processo de pasteurização.*2* Ou seja, objetivamente falando, os leites infantis não são exatamente iguais consoante a cadeia de produção inclua ou não transgénicos.

O segundo aspeto, ainda mais importante, vem retratado em investigação muito recente de uma equipa coordenada pela universidade italiana de Nápoles, que alimentou cabras com soja transgénica.*3* Este trabalho detetou perturbações importantes no colostro, o primeiro leite produzido pós-parto e que possui uma importante função imunitária. Além disso, ao fim de um mês de vida, as crias que mamaram nas mães alimentadas a transgénicos apresentavam claramente menos peso do que o grupo de controle.

Face a estes dados não pode ser descartada a possibilidade de que os leites infantis produzidos com leite obtido de animais alimentados com rações que, em Portugal, são na sua esmagadora maioria transgénicas, representem um risco mensurável para os bebés e crianças. Note-se que a EFSA - Autoridade Europeia de Segurança Alimentar neste momento ainda não exige avaliação deste tipo de potenciais problemas antes de dar o seu selo de aprovação a novos transgénicos na União Europeia.

Enquanto tais salvaguardas não são implementadas os portugueses podem agora começar a exercer o seu direito a um consumo informado numa área – a alimentação infantil – que devia merecer o maior cuidado e rigor.

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NOTA 1: A Plataforma Transgénicos Fora faz questão de relembrar a recomendação da Organização Mundial de Saúde relativa aos benefícios do aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses de idade.
NOTA 2: A Plataforma Transgénicos Fora não recebeu qualquer financiamento ou influência externa no tocante à elaboração e conclusões deste trabalho

referências

*1* https://gmoanswers.com/ask/if-cow-eats-gmo-corn-or-soy-there-any-way-tell-or-there-any-difference-animals-meat-or-milk

*2* Agodi, A., Barchitta, M., Grillo, A., & Sciacca, S. (2006). Detection of genetically modified DNA sequences in milk from the Italian market. International journal of hygiene and environmental health, 209(1), 81-88.

Tudisco, R., Mastellone, V., Cutrignelli, M. I., Lombardi, P., Bovera, F., Mirabella, N., ... & Infascelli, F. (2010). Fate of transgenic DNA and evaluation of metabolic effects in goats fed genetically modified soybean and in their offsprings. Animal, 4(10), 1662-1671.

*3* Tudisco, R., Calabro, S., Cutrignelli, M. I., Moniello, G., Grossi, M., Mastellone, V., ... & Infascelli, F. (2015). Genetically modified soybean in a goat diet: Influence on kid performance. Small Ruminant Research, 126, 67-74.

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Comentários

Não há ciência alguma nesta história toda: quem come transgênico não tem um picograma de proteinas transgénicas nem DNA transgênico, muito menos o leite.

Caro Paulo,
É um prazer poder contar com a sua visita regular ao nosso site. Quando diz que não há ciência neste comunicado de imprensa tem alguma razão. De facto, nem tudo se resume à ciência. Há aspetos nos alimentos transgénicos que não são científicos. O direito à escolha, por exemplo, não deriva da ciência mas sim de uma opção social nesse sentido. O direito à informação também. Por isso este comunicado, que pretende potenciar essa informação e essa escolha, não tem que ter ciência.

Mas o Paulo engana-se no que toca à parte do comunicado que até tem ciência. Pode ser ciência preliminar, ciência que incomoda, ciência que não bate certo com as suas certezas, mas é ciência. A não ser que, para o Paulo, só seja ciência se está de acordo com o que lhe convém em cada momento. Mas quando a ciência se entende como um corpo de conhecimento em constante evolução e auto-análise, publicado em revistas internacionais da especialidade após revisão por pares, objeto de verificação em qualquer momento, e sem preconceitos na purga de hipóteses de já não encaixam nas observações, então as referências incluídas no comunicado são de facto ciência, e as suas conclusões estão de pé até que melhores dados sejam publicados.

Bem vindo ao mundo da ciência honesta, caro Paulo.
Cumprimentos,
Plataforma Transgénicos Fora

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