Greenfest - Que papel para as multinacionais?

A Campanha das Sementes Livres, que a Plataforma Transgénicos Fora tem vindo a apoiar, foi convidada a participar no Greenfest, que se anuncia como "o maior evento de sustentabilidade do país". No entanto, e face ao envolvimento na iniciativa de empresas com práticas profundamente insustentáveis, a Campanha decidiu não participar e explica porquê. Leia aqui a informação detalhada.

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Caros organizadores do Greenfest,

No seguimento do vosso convite para marcar presença no Greenfest e da vossa resposta à nossa inquirição sobre as v. entidades patrocinadoras ("Os patrocínios e parcerias ainda não estão todos confirmados mas são eles que nos permitem realizar o evento com a expressão e dimensão que tem. A EDP tem sido um dos principais patrocinadores e provavelmente voltará a ser este ano. Com a Nestlé ainda estamos em negociações, por isso não há garantias. São estes apoios que nos permitem dar palco a vozes que são importantes ouvir."), gostávamos de explicar porque é que não nos é possível dar a cara pelas Sementes Livres no vosso evento.

A Campanha pelas Sementes Livres e os seus parceiros nacionais e internacionais desde há três anos travam uma luta contra a apropriação dos nossos recursos naturais comuns por parte de governos de países poderosos e por corporações transnacionais como Nestlé, Unilever, Cargill, Monsanto e Bayer. A Campanha une pessoas, grupos, associações e movimentos que também se opõem à introdução de OGM na nossa agricultura e alimentação (Nestlé é defensora dos OGM, ver também aqui), à destruição dos últimos rios selvagens pela construção de barragens desnecessárias como está a ser levada a cabo pela EDP e aos acordos comerciais opacos entre EUA e União Europeia - o último sendo o TTIP - e dos quais beneficiam outros antigos patrocinadores vossos como Microsoft, por verem legitimados os seus monopólios e reforçados os seus "direitos" de fazer dinheiro, ao ponto de poderem processar qualquer governo que coloque um tecto no seu lucro.

Uma vez que temos convites regulares para falar sobre a causa das sementes de cultivo e o seu lugar numa alimentação e agricultura sãs e solidárias, não nos parece produtivo nem ético investir nosso tempo em eventos onde as questões ecológicas e sociais são co-optadas pelas mesmas entidades que causam a privatização e degradação do nosso meio-ambiente. Todos nós nos recordamos da ligação da Nestlé à promoção dos OGM e à destruição da selva de Bornéo para exploração do óleo de palma. Nenhum de nós consegue esquecer a calamidade que a EDP está a provocar nos últimos redutos selvagens em Portugal.

Não nos parece aceitável que quem é parte do problema se aproprie das "cores da solução" quando nada pretende fazer para alterar o estado das coisas.

Também não nos parece razoável que apenas com dinheiro e recursos de multinacionais se consegue fazer um evento em prol da "sustentabilidade". A sustentabilidade a nosso ver inclui um descrescimento nos gastos e materiais envolvidos num festival ou festa e sobretudo um decrescimento na ambição de tirar proveito de tudo e de todos.

Sustentabilidade a nosso ver é simplificar as actividades humanas, reduzi-las para a dimensão humana e torná-las outra vez acessíveis a todos. Fazer tudo rigorosamente igual mas chamar verde, a nosso ver não basta.

Julho 2014

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