Que mal é que fazem os OGM?...

A Agricultura Biológica nasceu no pós II Grande Guerra em resposta a uma questão semelhante: que mal fazem os químicos? Essa resposta teve o apoio dos factos – os comprovativos da nocividade de adubos e pesticidas químicos para a alimentação e a saúde humanas – e o apoio dos consumidores.

Após a crise petrolífera, a grande indústria agroalimentar viu na investigação genética a possibilidade de investimento exclusivo, pela sua tecnicidade e pela possibilidade de patentear os produtos. Aconteceu em 1982 ser “pela 1ª vez patenteado um ser vivo: um rato transgénico com tendência para desenvolver cancros” (Ar Livre nº10, p. 9). A que se sucederam inúmeras outras patentes e inúmeros “acidentes”, ocultação de informação pelas empresas produtoras e financiamento de grupos de pressão e de instituições académicas e políticas.

Mas, afinal, que mal é que fazem os transgénicos?

Não se sabe muito. Até porque são as próprias empresas que fazem ou encomendam a maioria da investigação e só divulgam o que querem. Mas as experiências científicas que lhe estão subjacentes, ao ultrapassarem as barreiras naturais das espécies – entre plantas e bactérias, fungos e animais, por exemplo – envolvem perigos novos. As consequências da engenharia genética são, por definição, imprevisíveis. Pelo que qualquer descuido ou imprecaução pode ter graves consequências para a saúde das pessoas, para as sociedades humanas e para os ecossistemas. A falta de precaução é MUITO perigosa, por vezes, um erro irreversível.

Os produtores de transgénicos fazem mal, portanto, em “pôr o carro à frente dos bois” forçando a produção de plantas e animais e a sua comercialização sem a prévia investigação científica extensiva e sem o prévio consenso científico sobre a inocuidade de cada um dos seus produtos.

Os produtores de transgénicos fazem mal quando instrumentalizam a confiança dos cidadãos na ciência, no progresso e na tecnologia simplesmente para impingirem os seus produtos sem nenhuma preocupação quanto às suas consequências. Como aconteceu com a energia nuclear, procuram impor pela manipulação da informação e pela pressão política, uma tecnologia potencialmente muito perigosa, só acessível a poucas empresas e a poucos países, em detrimento de alternativas melhores, acessíveis a um maior número e que não são perigosas... mas que não dão tanto lucro porque não estão sujeitas a patentes.

Nos anos 70, os defensores da energia nuclear também diziam que pôr em causa o nuclear – o “átomo pacífico” como então diziam – era o mesmo que defender o retorno às cavernas. Mas está hoje cada vez mais claro que existem alternativas científicas e tecnologias de ponta alternativas à energia nuclear, que são seguras e suficientemente produtivas.

Os produtores e vendedores de OGM fazem mal em prometer vantagens e benefícios e em esconder informação, viciar protocolos científicos ou dificultar a prevenção de riscos.

Fazem mal em prometer aumento de produtividade que não se comprova: estudos independentes mostram que não há transgénicos à venda que sejam mais produtivos do que as variedades convencionais de ponta; a soja transgénica chega a ter uma quebra de 9%.

Fazem mal ao iludir muitos camponeses pobres, na Índia, por exemplo, levando-os ao sacrifício da própria vida. Este ano pela primeira vez um ministro indiano reconheceu a ligação entre o aumento dos suicídios de camponeses e a sua adoção do algodão transgénico.

Fazem mal em dizer que os OGM requerem menos uso de pesticidas e outros químicos, porque o que se verifica é o contrário.

Fazem mal em promover melhorias desnecessárias ou que não passam de meros argumentos publicitários de uma economia consumista (como a introdução de ómega 3, ácidos gordos essenciais, redução de fósforo).

Fazem mal em omitir informações e em mentir aos cidadãos e às autoridades. As empresas dos transgénicos já mostraram que não são de confiança!

Os negociantes em transgénicos fazem mal em disseminar plantas potencialmente perigosas, alegando hipocritamente um contributo para o combate à fome no mundo, quando se sabe que a fome deriva antes do mais da pobreza, que aumenta a par dos aumentos dos lucros das empresas que os difundem.

Amartya Sen ganhou o prêmio Nobel de 1998 em parte pela sua demonstração de que a fome, nos tempos modernos, não é tipicamente o produto de uma falta de alimentos, mas sim, frequentemente, gerada a partir de problemas nas redes de distribuição de alimentos ou de políticas governamentais no mundo em desenvolvimento (in pt.wikipedia.org/wiki/Fome#Fome_no_Mundo).

Os defensores dos transgénicos fazem mal quando reduzem a globalização ao reino da má moeda e dos maus produtos, pois a globalização da concentração da propriedade das terras, das sementes e dos insumos agrícolas pode aumentar a concentração da riqueza mundial nas mãos de poucos mas o extremar global de injustiças e de imposições será reconhecidamente fonte da globalização de violentos sofrimentos... e conflitos.

Em particular, a defesa dos transgénicos na Europa por referência ao preço dos alimentos manipulados pelas multinacionais do agronegócio faz mal aos europeus pois representa, além da globalização da ameaça genética, a submissão aos especuladores que no passado próximo se serviram da crise climática para promover os biocombustíveis; biocombustíveis estes que ajudaram a criar a crise alimentar que agora lhes serve de argumento para a venda das suas patentes sobre OGM e respectivos químicos, e para aumentar a pressão milionária para a autorização dos OGM pela Comissão Europeia. Além da pressão para o patenteamento de todas as sementes, tentando monopolizar o seu comércio e ilegalizar a troca pelos agricultores das sementes tradicionais!...

Entretanto, os europeus têm defendido e ganharão (até na concorrência comercial) em defender acerrimamente culturas agrícolas e alimentos livres de OGM, referência alimentar e ambiental de qualidade em harmonia com a herança civilizacional do continente.

Não deveremos, de facto, importar e consumir transgénicos que não obedeçam aos critérios de rigor e precaução definidos cientificamente, nem para a alimentação humana nem para a alimentação animal. Temos de exigir que a carne, o leite e os ovos provenientes de animais alimentados com rações geneticamente modificadas sejam identificados e rotulados como tal para que os consumidores possam escolher os seus alimentos.

Os consumidores europeus precisam de uma produção agroindustrial sustentável, que crie emprego e riqueza para si, mas que seja respeitadora dos agricultores e da qualidade dos alimentos em todo o mundo, que proteja a paisagem, os recursos naturais e o Ambiente.

Para garantir a segurança alimentar, precisamos de favorecer a estabilidade e a equidade no comércio internacional: não precisamos de nos submeter aos interesses comerciais de empresas transnacionais.

Um estudo sobre a agricultura mundial concluído em 2008 demonstrou que existem outras e melhores tecnologias agrícolas – como a agricultura biológica -, que podem ser ou já estão a ser postas em prática. Só falta vontade política. Os cidadãos europeus têm mostrado ter essa vontade política e defendê-la junto das instâncias de poder. Vamos continuar a fazê-lo!

---

Esta é a transcrição de uma Intervenção da Plataforma Transgénicos Fora no Colóquio organizado na loja da Biocoop em 30.03.2012 em Lisboa.

Comentários

Os orgânismos vivos, por natureza são mutantes, as próprias celulas que compõem os seres vivos assimilaram celulas como os mitocondrias, quem sabe quais os efeitos des experimentos transgênicos, isso poderá acelerar as mutações dos seres vivos. A propria Natureza, se encarrega de adaptar-se as mudanças. Uma coisa que Darwin já descrevia em seus estudos e que Mendel comprovou.

Caro Carlsou,
Não existe qualquer nível equivalência entre a evolução por seleção natural das variações naturais em populações (incluindo as mutações, a esmagadora maioria das quais é debilitante), que é um fenómeno que acontece muito lentamente - ao longo de milhões de anos! com o fenómeno de criação de transgénicos e generalização do seu cultivo pelo mundo no espaço de uma geração.
E não se esqueça que, de facto, a Natureza acaba por se adaptar. Só que isso não garante de todo que o resultado vá ser compatível com a sobrevivência continuada da nossa espécie.
Melhores cumprimentos,
Plataforma Transgénicos Fora

Não fui claro na minha resposta, por isso quer me reportar que não creio que os trângenicos sejam inofensivos ou máleficos, só não acredito que não tragam problemas, pois temo um ornaismo transgenico que vive a não quanto na naturzae e se sua origem é terrestr, mas ele arranjou um jeito de se mante, e nada consegue impedi-lo, chama-se VIRUS, concordo com a discursão de vocês e apoio, principalmente com o problema que existe algumas pessoas que não medem esforços para obter lucro, poder e posição social. O que acontecerá quando as vacas derem leite humano, o consumo de sua carne não será canibalismo, pois ao dar leite humano, ela será human mas com o corpo de uma vaca, será que após a modificação genetia para humanização da vaca ela não poderá desenvolver um intelecto?

Gostaria de nos apoiar?

FALE CONNOSCO