Inocência perdida

2010/10/31 - Longe vai o tempo em que as universidades eram financiadas apenas com dinheiros públicos e cumpriam o propósito de trabalhar para o bem comum, com independência e generosidade. As últimas décadas trouxeram-lhes uma infusão generalizada de financiamentos privados e, com eles, as respectivas influências e interesses especiais. É difícil acreditar que as instituições de ensino superior que dependem das grandes bolsas das multinacionais possam estar à vontade para se posicionar de forma crítica em relação à "mão que as alimenta" quando a tal pudessem sentir-se compelidas. A verdade é, para avaliar actualmente a ciência, não basta perguntar pelas credenciais de quem aproduziu mas também pelo nome de quem a financiou.

Foi agora publicado um relatório detalhado (Big Oil Goes to College) de mais um desenvolvimento que aponta o nível de interferência a que as universidades já se sujeitam. Trata-se de um conjunto de "parcerias de investigação" com somas que atingem as centenas de milhões de dólares e abrange uma dezena de universidades americanas de topo. Estas somas destinam-se em grande medida ao desenvolvimento de biocombustíveis e outras fontes de energia. A questão central é que os representantes da indústria têm assento e voto nos órgãos universitários que vão decidir a utilização dos fundos, e efectivamente vão poder conduzir e formatar o tipo de investigação a ser desenvolvido nestas áreas durante a próxima década, o que para todos os efeitos determina também aquilo que vai acabar por chegar ao mercado. Têm também em primeira mão o acesso às patentes obtidas. Para todos os efeitos, as universidades colocaram-se ao serviço da indústria.

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