Riscos para a agricultura

O totobola dos transgénicos

Setembro de 2010 - A ciência, com todas as suas limitações, ainda assim não pára de acumular provas da instabilidade e imprevisibilidade das plantas transgénicas. Já se sabia que, quando as variedades transgénicas são criadas, se usam as variedades convencionais topo de gama como ponto de partida, e que portanto o aparente aumento de produtividade se deve de facto ao vigor dessas linhagens convencionais. Também se sabe que ao fim de algum tempo se instala a resistência, tanto em ervas daninhas como em insectos.

E agora cientistas suíços publicaram um trabalho que acrescenta mais alguns dados muito importantes. O que eles verificaram foi que, quando diferentes variedades transgénicas (de trigo, neste caso) com bons resultados em estufa eram cultivadas em campo aberto, tudo podia acontecer: quebras de produtividade (até 56%!) e maior susceptibilidade à doença (até 40 vezes mais!) foram os resultados mais dramáticos. Também encontraram uma quebra geral de vigor e maior vulnerabilidade aos stresses ambientais, para além de alterações na morfologia.

O que estes resultados mostram é que o processo de manipulação genética afectou profundamente a constituição da planta, de formas que só se tornam visíveis quando determinadas condições estão reunidas. Ou seja, um transgénico pode ter um comportamento relativamente normal... até ao dia em que muda um qualquer factor ambiental e a produtividade (ou outro aspecto importante) colapsa ou se torna deficiente.

Como é que podemos colocar a futura subsistência alimentar da espécie humana a depender de plantas com comportamento tão aleatório? Como é que podemos continuar a aprovar transgénicos para cultivo sem os sujeitar a pelo menos alguns testes de stress?

Eis o artigo científico respectivo: Transgene x Environment Interactions in Genetically Modified Wheat.

43 proteínas!


Setembro 2010 - Quem não ouviu já dizer que os transgénicos são iguais à planta original mais uma única proteína, a transgénica? Pois bem, nada poderia estar mais longe da verdade. Um trabalho realizado por equipas de duas universidade italianas revelou que, no caso do milho transgénico MON 810 (o mesmo que é cultivado em Portugal), a manipulação genética introduz uma profusão de alterações, para além de acrescentar a proteína nova propriamente dita. Foram detectadas mudanças nos níveis de expressão de 43 proteínas! Estas alterações - totalmente inesperadas - são atribuídas pelos cientistas ao processo de introdução do transgene. Um pouco como uma bomba atira estilhaços, também a entrada do transgene cria interferências em muitos outros pontos do genoma. Isto não prova que este transgénico represente um risco para a saúde, note-se, mas certamente prova que é claramente diferente da variedade de controlo. E isso é precisamente o que a indústria e a EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar) se recusam a admitir.

Eis o artigo: Proteomics as a Complementary Tool for Identifying Unintended Side Effects Occurring in Transgenic Maize Seeds As a Result of Genetic Modifications.

O custo escondido de ser transgénico

Setembro de 2010 - Quando uma planta é alterada por engenharia genética e começa a produzir uma proteína transgénica, o seu metabolismo paga um preço. Este é talvez dos segredos mais bem guardados no comércio de transgénicos: quem é que gostaria de dizer que está a vender sementes mais "fracas" que o normal? Mas quando se fazem experiências minuciosas é isso mesmo que se encontra.
Em artigo científico recentemente publicado, especialistas chineses estudaram o impacto da engenharia genética em diferentes variedades transgénicas de arroz quando comparadas com uma variedade controlo não transgénica. E, quando as condições são exactamente iguais (no mesmo terreno, sem carga de insectos, etc), as variedades transgénicas podem produzir até 56% menos arroz do que o controlo. As explicações dos autores para estes resultados são de dois tipos: primeiro, ao produzir a proteína transgénica, fica menos energia disponível para produzir os bagos de arroz; e segundo, o processo de introdução do transgene pode interferir com os genes já existentes na planta e assim desestabilizá-la de diferentes formas, enfraquecendo-a. Os autores concluem com uma recomendação para a indústria dos transgénicos: precisam de "melhorar" a sua tecnologia!

O artigo pode ser descarregado aqui: Yield Benefit and Underlying Cost of Insect-resistance Transgenic Rice - Implication in Breeding and Deploying Transgenic Crops

Colza: A invasão

2010/08/06 - Foram hoje apresentados no congresso anual da Sociedade Americana de Ecologia os resultados de um trabalho de investigação relativo ao aparecimento de colza (um tipo de couve) transgénica em zonas não cultivadas. Os cientistas percorreram cerca de 5 mil quilómetros de estradas no estado do Dakota do Norte e a cada oito quilómetros recolheram amostras das ervas em estado selvagem que encontraram. Quarenta e seis por cento dessas amostras continham colza e, dentro das que continham colza, 80% continham colza transgénica. Esta colza GM era sobretudo de variedades da Monsanto, havendo também da Bayer. O mais interessante neste estudo foi o facto de terem sido encontradas plantas duplamente resistentes: com um transgene para o herbicida da Monsanto e outro para o da Bayer – algo que não existe no mercado.

O que significam estes resultados?

Primeiro, que a colza transgénica sobrevive bem sem a ajuda de ninguém: foram encontradas plantas na beira das estradas e terrenos agrícolas abandonados, mas também em estações de serviço, cemitérios, campos de bola e muitas outras zonas a grande distância de qualquer campo de colza.

Segundo, a colza transgénica não só sobrevive como se instala com à vontade e, ao longo de várias gerações, espalha os seus transgenes - só isso explica o aparecimento de plantas duplamente resistentes. E outras espécies selvagens "primas" da colza podem facilmente adquirir estes transgenes.

Terceiro, estas plantas já não podem ser combatidas pelos herbicidas mais usados, o que as pode transformar em invasoras agrícolas de difícil controlo.

Quarto, o nível de contaminação generalizada encontrado mostra que a regulamentação americana que é suposta evitar tal fenómeno não está a funcionar ou é muito insuficiente.

Quinto, ninguém sabe o que é que a introdução destes transgenes vai implicar ou alterar no equilíbrio dos ecossistemas onde aparecerem. E os ecossistemas já estão, em geral, tão stressados, que qualquer novo stress pode ser a gota de água.

E sexto, a indústria enganou-se. Segundo, por exemplo, o Dr Julian Little, do lobby pró-transgénicos Agricultural Biotechnology Council, "As plantas transgénicas são produções humanas e quando toca a competir com as suas homólogas selvagens não se dão nada bem". Este estudo, que encontrou comunidades bem instaladas de colza transgénica, vem demonstrar o contrário.

Resistência Generalizada - As Infestantes Contra-atacam

ACTUALIZAÇÃO EM 2010/07/25 - A Monsanto já reconhece que os seus transgénicos herbicido-dependentes estão a trazer problemas aos agricultores.



Um terreno tomado pela infestante Amaranthus palmeri (trata-se da planta mais alta)

Maio de 2010 - Aconteceu. Aquilo que a Monsanto em tempos tinha afirmado que não passava de um conceito "duvidoso", tem agora honras de notícia no New York Times. Trata-se do aparecimento generalizado, em milhões de hectares distribuídos por 22 estados americanos, de pelo menos 10 espécies de ervas daninhas resistentes ao herbicida Roundup, da Monsanto. Segundo Andrew Wargo, presidente da Arkansas Association of Conservation Districts, trata-se "da maior ameaça à produção agrícola que alguma vez vimos".

A Pioneer volta a atacar

2010/07/23 - Das duas uma: ou a Pioneer realmente não sabe o que anda a fazer, ou sabe bem demais. Depois de ter vendido milho contaminado na Alemanha, a Pioneer forneceu ao governo irlandês milho não transgénico certificado... só que também estava contaminado. Será que a segunda maior multinacional de sementes do mundo não sabe onde põe os seus transgénicos e não consegue controlá-los? Ou o objectivo é mesmo contaminar a torto e a direito? Fica a dúvida.

China: A busca do facto consumado

2010/06/25 - O governo chinês ainda não permitiu a circulação e cultivo de arroz transgénico, mas isso não parece estar a impedir o seu comércio. Há já vários anos que a União Europeia tem vindo a detectar arroz transgénico não autorizado em importações chinesas, e agora as notícias começam a chegar com o retrato de uma situação fora de controlo. Embora o governo chinês dê alguns sinais de estar a tentar circunscrever o desastre, as toneladas de arroz transgénico que aparentemente estão em circulação mostram com clareza qual a estratégia subjacente: quem produz estas sementes oferece-as em grandes quantidades aos agricultores até criar um facto consumado e assim forçar a sua legalização. Garantias de segurança, rotulagem, segregação, direito à escolha, protecção contra a irreversibilidade... qual quê? O que parece comandar é a maximização do lucro de alguns, independentemente do impacto em todos os outros.

Notícia original: Genetically Modified Rice Seeds Discovered in Hunan Province

A contaminação dos campos

2010/06/07 - A Alemanha é o exemplo mais recente de como os transgénicos são incompatíveis com outras formas de fazer agricultura. Ainda não se sabe como, mas foi semeado em sete estados milho que estava contaminado com sementes transgénicas da empresa americana Pioneer que são ilegais na UE. Isto mostra mais uma vez que, uma vez postos em circulação, os transgénicos não são controláveis e acabam por aparecer um pouco por todo o mundo. Quanto mais transgénicos chegarem ao mercado, mais o sufoco das sementes convencionais vai aumentar. Com o passar do tempo, só vai sobrar agricultura transgénica.

Leia aqui a notícia da BBC: Banned GM maize sown in Germany.

Transgénicos: Será que precisamos deles?

O professor Marco Antônio Záchia Ayub, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Brasil) é doutor em Biologia Celular e Molecular e ensina na área da Biotecnologia e, para responder com mais facilidade a muitas questões dos seus alunos, publicou um documento que, numa linguagem acessível, desmonta numerosos mitos associados aos alimentos e culturas transgénicas. Para ler, basta clicar e descarregar: Alimentos Transgênicos - Será Que Precisamos Deles?.

Produtores brasileiros ganham mais com soja não transgénica


2010/05/31 - Segundo notícia divulgada hoje pela Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso, Brasil, a produção de soja convencional está a trazer mais lucros aos agricultores. Enquanto que a soja transgénica luta com dificuldades por causa das infestantes resistentes que estão a alastrar e o elevado custo dos herbicidas, o mercado da soja convencional oferece uma valorização adicional de 4 reais por saco. Note-se que estes produtores não são anti-transgénicos: eles se limitam a maximizar os seus proveitos. E no Brasil, claramente, isso significa produzir soja convencional, não transgénica.
A notícia original está aqui: Custo menor favorece semente convencional.

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